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Azul de rio, vermelho de sangue


texto para "Mais TMJB", nº36 - Janeiro / Julho 2020


No começo de “O Físico Prodigioso”, de Jorge de Sena, há um cavaleiro de erecto corpo. Irrompe numa paisagem que um sol muito alto incendeia de crepitações e vem, o que só deduzo pelo que a epígrafe do Padre Manuel Bernardes insinua, livre da consciência do pecado mortal.

A pintora Mariana Viana, que ilustrou a edição dourada do livro de Jorge de Sena, apeou o cavaleiro e deixou erecto um cavalo de que nos dá a ver, mais do que o corpo, a alma tracejada e tricolor: a alma de um cavalo é assim, e segundo Mariana Viana, uma alma loura que o vento semeia de traços negros e inadvertidas manchas brancas. O vento que, a páginas 14 e 15, sopra nessa ilustração, desenha uma árvore que estende a oeste, numa inclinação unilateral, obsessiva e alarmante, todos os ramos e cada folha.

Mas vejam antes o que o meu olhar tenta ignorar: o azul flagrante que corre pelas duas páginas, escurecido e espesso nas margens, quase translúcido no meio da «chapa metálica» – palavras de Sena – esse rio que deteve o cavaleiro e o convida ao «antegosto do banho prolongado». Mariana Viana, despedindo-se de Sena, inventou no rio um túnel do tempo e é nele que desenha e dá rosto ao cavaleiro de cabelos que roubaram a cor à loura alma do cavalo.

Na sua reconstrução de “O Físico Prodigioso”, Mariana tem a mesma mão fiel e olhar infiel de Botticelli a reconstruir a «Anunciação» ou de Caravaggio a reconstruir a «Captura de Cristo»: tradição da pintura, mente para dizer a verdade. O cavaleiro banha-se num vórtice desse rio que termina em garra e que talvez seja só, na sua limpidez azul, um braço satânico. E banha-se vestido, presumo, na cabeça o gorro vermelho que lhe confere inocência e poderes.

A nudez com que Sena o mergulha nas águas, guardou-a Mariana Viana para a ilustração da página 20. É uma nudez pós-coital, lavada de pecado, longilínea, os louríssimos cabelos já sem o gorro vermelho, o peito e ventre lisos, o manso e delicado pénis, que um humilde risco de lápis traçou, e, surpresa, o revolto volume da púbis, encarapinhados pêlos negros que contrariam e desmentem a loura cabeleira.

Rimbaudiana nudez heliotrópica sobre azul: uma tormentosa massa de água, tumultuosa mistura de azuis, a fazer de cama e almofada ao corpo em sossego que, uma vez mais, contraria o corpo que, pulando e saltando, Sena tinha posto no rio a esfregar-se violentamente.

Em 21 ilustrações, a azul de rio e vermelho de sangue, a triângulos de escuros pêlos, seios, maçãs maduras, nádegas e um luto de negríssimo azul, cavalos e Eríneas, corda de enforcado e asas de anjo, Mariana Viana reconstruiu o “Físico Prodigioso” por obra e graça de uma figuração realista e um véu surreal de mistério e de sugestão.

A páginas 142 e 143, Mariana agarra na população de Sena que invade as ruas e inventa uma multidão ectoplásmica, munchiana, de rostos comprimidos por vivos vestígios de azul, multidão de faces sem corpo que, digo eu, Mariana Viana roubou ao nosso tempo mais do que a Sena, carregando-a de culpa apocalíptica, que nenhuma roseira de sangue e leite pode já redimir. Eis o Físico que, pela mão e olhar de Mariana Viana é, hoje, o nosso amor em visita.

Manuel S. Fonseca

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